Quando uma dúvida sobre o desenvolvimento vira uma pergunta urgente

Talvez a professora tenha percebido que a criança se comunica de maneira diferente. Talvez algumas palavras que pareciam estar surgindo tenham demorado mais do que o esperado. Talvez os pais estejam observando formas muito particulares de brincar, reagir a sons, lidar com mudanças ou se relacionar com outras pessoas.

A primeira informação importante é simples: a família não precisa descobrir tudo sozinha antes de procurar ajuda.

No Sistema Único de Saúde, a Atenção Primária — normalmente representada pela Unidade Básica de Saúde, a UBS — é a principal porta de entrada para o acompanhamento do desenvolvimento infantil. O Ministério da Saúde orienta que o primeiro passo para quem procura avaliação para Transtorno do Espectro Autista (TEA) seja justamente buscar a UBS mais próxima. A partir dela, a criança pode ser acolhida, acompanhada e, quando necessário, encaminhada para serviços especializados.

Isso também significa que a família não precisa esperar meses ou anos por um diagnóstico fechado para começar a conversar com profissionais sobre dificuldades observadas no cotidiano. O Ministério da Saúde informa que ações de apoio podem começar mesmo antes da confirmação diagnóstica.

Passo 1: registre o que você está observando

Antes da consulta, vale organizar exemplos concretos.

Em vez de chegar dizendo apenas “acho que meu filho pode ter autismo”, anote situações como:

  • quais formas a criança utiliza para pedir alguma coisa
  • como reage quando a rotina muda
  • como brinca sozinha e com outras pessoas
  • se existem sons, texturas ou ambientes que parecem causar desconforto
  • como responde quando alguém chama seu nome
  • se utiliza palavras, gestos, apontar, imagens ou outras maneiras de se comunicar
  • como estão sono, alimentação e rotina
  • o que a escola ou creche percebeu
  • quais habilidades surgiram recentemente
  • quais situações parecem particularmente difíceis

Essas observações não servem para os pais “diagnosticarem” a criança. Elas ajudam a equipe a entender o cotidiano.

Leve também a Caderneta da Criança, quando disponível. Ela acompanha saúde, crescimento e desenvolvimento até os 9 anos e possui espaços e instrumentos destinados justamente ao acompanhamento desses aspectos.

Atualmente, existe também a Caderneta Digital da Criança dentro do Meu SUS Digital, com registros e conteúdos ligados ao desenvolvimento infantil.

Passo 2: procure a Unidade Básica de Saúde

A UBS é o ponto de partida recomendado pelo Ministério da Saúde.

A equipe poderá ouvir a família, verificar o histórico de desenvolvimento, avaliar outras questões de saúde que possam estar relacionadas e acompanhar a criança ao longo do tempo.

Para crianças pequenas, existe ainda um instrumento de rastreio chamado M-CHAT-R/F, incorporado à Caderneta da Criança e ao Prontuário Eletrônico do Cidadão. Segundo o Ministério da Saúde, ele pode ser aplicado entre 16 e 30 meses por profissional treinado e é composto por perguntas dirigidas aos responsáveis.

É importante entender a palavra rastreio: o resultado de um questionário não equivale a diagnóstico.

Ele serve para identificar situações que merecem avaliação mais cuidadosa.

Passo 3: se necessário, a criança será encaminhada

Depois do atendimento inicial, diferentes caminhos são possíveis conforme as necessidades da criança e a organização dos serviços no município.

Entre os pontos que podem fazer parte da rede estão:

Centros Especializados em Reabilitação — CER

Os CER fazem parte da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência e podem atuar com diagnóstico, habilitação, reabilitação e acompanhamento multiprofissional.

Dependendo da habilitação e da estrutura local, podem existir profissionais de áreas como psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, fisioterapia, serviço social e outras especialidades.

Para famílias de crianças autistas, eles são um dos principais serviços especializados que podem integrar o cuidado.

CAPS e CAPSi

Os Centros de Atenção Psicossocial também integram a rede pública.

No caso de crianças e adolescentes, o CAPSi pode participar do cuidado especialmente quando existem necessidades relevantes relacionadas à saúde mental. O próprio Ministério da Saúde diferencia esse papel do CER e explica que a rede deve funcionar de maneira articulada.

Isso significa que nem toda criança autista necessariamente será acompanhada pelo CAPSi.

O encaminhamento depende das necessidades apresentadas e da organização da rede local.

Policlínicas, centros de especialidades e hospitais de referência

Alguns municípios concentram determinadas avaliações ou especialidades nesses serviços.

Por isso, duas famílias que vivem em cidades diferentes podem percorrer caminhos distintos dentro do SUS.

Responsável conversa com profissional de saúde enquanto a criança brinca em um consultório acolhedor
A UBS acolhe a família, acompanha o desenvolvimento e organiza encaminhamentos quando necessários.

“Quais terapias meu filho vai fazer?”

Essa talvez seja uma das maiores fontes de ansiedade.

A resposta responsável é: depende da criança.

O Ministério da Saúde utiliza o conceito de Projeto Terapêutico Singular — PTS, no qual o plano de cuidado considera necessidades, potencialidades, contexto familiar, autonomia e participação da própria pessoa e de sua família.

Em determinadas situações, o cuidado pode envolver áreas como:

  • Mas uma criança não precisa automaticamente receber todas essas intervenções

Mas uma criança não precisa automaticamente receber todas essas intervenções.

Também é importante desconfiar de afirmações de que existe um único método obrigatório para todas as pessoas autistas. O Ministério da Saúde afirma que existem diferentes intervenções e que o cuidado precisa considerar as necessidades singulares da pessoa.

A pergunta mais útil deixa de ser “qual terapia todo autista precisa?” e passa a ser:

“Quais dificuldades e habilidades desta criança precisam ser apoiadas agora?”

É preciso esperar o diagnóstico para começar a ajudar?

Não necessariamente.

A Atenção Primária pode identificar dificuldades do desenvolvimento e iniciar orientações e acompanhamento antes de um diagnóstico definitivo. O Ministério da Saúde destaca que ações de apoio podem começar mesmo sem a confirmação do TEA.

Isso é especialmente importante porque uma criança pode precisar de apoio para comunicação, alimentação, desenvolvimento motor, interação ou participação no cotidiano independentemente do nome que futuramente será dado à condição.

A família não precisa transformar a busca pelo diagnóstico em uma espécie de “sala de espera” na qual nada pode acontecer.

Como encontrar atendimento perto de casa

Existem três caminhos especialmente úteis.

1. Procure a UBS do território

Mesmo que a família tenha ouvido falar de um grande centro especializado em outra região, a UBS continua sendo uma entrada importante porque ajuda a organizar encaminhamentos e continuidade do cuidado.

2. Utilize o Meu SUS Digital

O Meu SUS Digital permite consultar estabelecimentos de saúde de acordo com a localização do usuário e visualizar rotas. Entre os serviços disponíveis estão UBS, hospitais e serviços de atenção psicossocial.

Esse recurso pode reduzir uma dificuldade comum: encontrar um endereço na internet sem saber se aquele estabelecimento realmente integra a rede pública ou atende determinada demanda.

3. Consulte os serviços CER habilitados

O Ministério da Saúde mantém informações sobre Centros Especializados em Reabilitação habilitados no país. Os dados públicos de CER foram atualizados em junho de 2026.

A presença de um CER na cidade, porém, não significa necessariamente atendimento direto sem encaminhamento. O fluxo deve ser confirmado localmente.

O que levar para a consulta

Uma pequena pasta pode facilitar bastante o processo.

Considere reunir:

  • Não é preciso aparecer com dezenas de páginas

Não é preciso aparecer com dezenas de páginas.

Informação organizada costuma ser mais útil do que quantidade.

E se houver fila para atendimento?

Filas e disponibilidade variam entre municípios.

Quando houver encaminhamento, procure saber:

  • Guarde protocolos e documentos

Guarde protocolos e documentos.

Se houver dificuldade para conseguir informações ou acessar um serviço do SUS, a família também pode procurar a Secretaria Municipal ou Estadual de Saúde e utilizar a Ouvidoria-Geral do SUS, pelo telefone 136 ou pelos canais digitais oficiais.

O objetivo de registrar uma solicitação não é criar conflito com os profissionais. É deixar documentado o problema e permitir que a rede local responda formalmente.

O que a família pode fazer em casa enquanto aguarda?

A resposta não é montar uma clínica dentro de casa.

A casa continua sendo casa.

Mas brincadeiras, leitura, refeições, banho, vestir-se, passeios e pequenas tarefas podem oferecer oportunidades de participação, comunicação e autonomia.

A Organização Mundial da Saúde desenvolveu um programa de treinamento de cuidadores de crianças de 2 a 9 anos com atrasos ou deficiências do desenvolvimento que utiliza justamente brincadeiras, atividades domésticas e rotinas cotidianas como oportunidades para interação e aprendizagem.

Isso não significa transformar atividades domésticas em “tratamento improvisado”.

Significa perceber que o desenvolvimento acontece também nas relações do cotidiano.

Alguns princípios seguros são:

  • observar o interesse da criança
  • usar instruções curtas
  • permitir diferentes formas de responder
  • oferecer tempo para a criança processar
  • brincar sem transformar cada minuto em teste
  • dar previsibilidade às transições
  • respeitar sinais de cansaço
  • valorizar comunicação por gestos, apontar, imagens ou fala
  • conversar com os profissionais que acompanham a criança sobre estratégias individualizadas

O cuidado também precisa incluir quem cuida

Uma família pode passar semanas pesquisando sintomas, meses esperando consultas e muito tempo reorganizando trabalho, escola e orçamento.

Por isso, o cuidado não pode ser construído apenas em torno de “corrigir” a criança.

O próprio Ministério da Saúde destaca a importância de oferecer informação, apoio emocional e orientação aos responsáveis e reconhece que a sobrecarga de cuidadores precisa ser considerada.

Em 2026, a Organização Mundial da Saúde também publicou material específico sobre bem-estar de cuidadores dentro de seu programa para famílias de crianças com atrasos ou deficiências do desenvolvimento.

Pedir apoio não diminui o cuidado oferecido à criança.

Pode ajudar a torná-lo sustentável.

Perguntas frequentes

Preciso de laudo para procurar a UBS?

Não. A UBS pode ser procurada quando existe uma preocupação com desenvolvimento infantil, mesmo sem diagnóstico.

A criança precisa esperar o diagnóstico para receber qualquer apoio?

Não necessariamente. O Ministério da Saúde informa que intervenções e ações de apoio podem começar mesmo antes da confirmação diagnóstica.

Todo autista precisa das mesmas terapias?

Não. O plano deve ser individualizado.

CER e CAPSi são a mesma coisa?

Não. Ambos podem fazer parte da rede, mas possuem funções diferentes. O CER está relacionado à reabilitação da pessoa com deficiência; os CAPS/CAPSi integram a rede de atenção psicossocial.

Existe um tratamento que funciona para todas as crianças?

Não. Diferentes crianças apresentam necessidades, habilidades e contextos diferentes.

Atividades em casa substituem terapia?

Não. Atividades familiares podem apoiar participação, comunicação, vínculo e aprendizagem, mas não substituem avaliação ou acompanhamento profissional quando estes são necessários.

Uma informação para guardar

A jornada não precisa começar com a certeza de um diagnóstico.

Ela pode começar com uma frase muito mais simples: